Por Francisco Cardoso, presidente da FETRANSUL
A transição energética é um dos grandes desafios e ao mesmo tempo, uma das principais oportunidades para o desenvolvimento do transporte e da logística no Brasil. Em um setor essencial para a economia nacional, que movimenta a produção, abastece cidades e conecta mercados, buscar alternativas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa é uma necessidade que precisa caminhar lado a lado com a eficiência operacional, a segurança energética e a competitividade das empresas.
Nesse contexto, a abertura de uma chamada de propostas pela Petrobras para a contratação de biometano, com possibilidade de fornecimento por até dez anos a partir de 2027, representa um movimento importante para o fortalecimento desse mercado no país.
Produzido a partir do aproveitamento de resíduos orgânicos, o biometano é uma alternativa renovável ao gás natural e pode contribuir para a redução da intensidade de carbono em diferentes atividades econômicas. Ao estimular contratos de longo prazo, a iniciativa também sinaliza a possibilidade de maior previsibilidade para produtores e investidores, favorecendo o desenvolvimento de projetos e a ampliação da oferta desse combustível.
O movimento está relacionado à Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), que estabeleceu mecanismos para incentivar a descarbonização e ampliar a participação de combustíveis renováveis na matriz energética brasileira. A regulamentação e a implementação dessas políticas serão determinantes para transformar o potencial do biometano em resultados concretos para a economia e para o meio ambiente.
Para o transporte rodoviário de cargas, essa discussão merece atenção especial. O setor busca alternativas que permitam avançar na redução das emissões sem comprometer a capacidade de atender às demandas do mercado. A diversificação das fontes energéticas, nesse sentido, é um caminho estratégico, que exige planejamento, investimentos e condições adequadas para a adoção de novas tecnologias.
O biometano pode integrar esse processo, inclusive em aplicações relacionadas ao transporte, desde que sejam consideradas as características de cada operação, a disponibilidade de combustível, os custos de aquisição e abastecimento, a infraestrutura necessária e a viabilidade econômica dos veículos. Não existe uma solução única para a descarbonização do transporte de cargas. A construção de uma matriz energética mais limpa dependerá da combinação de diferentes tecnologias e fontes de energia, conforme a realidade de cada atividade e região.
Além disso, o desenvolvimento do mercado de biometano pode gerar benefícios que vão além da redução de emissões. O aproveitamento de resíduos para a produção de energia renovável favorece a economia circular, estimula investimentos, cria oportunidades de negócios e pode contribuir para o desenvolvimento regional. Para o Rio Grande do Sul, onde a atividade agropecuária e diferentes segmentos industriais têm relevância econômica, essa agenda merece ser acompanhada de perto, considerando o potencial de aproveitamento de resíduos e a necessidade de soluções energéticas competitivas.
A chamada da Petrobras também evidencia a importância de um ambiente regulatório estável e previsível. A definição das metas de aquisição de biometano, os critérios de certificação, a estrutura de comercialização e a expansão da oferta serão fatores importantes para dar segurança aos investimentos e estimular a participação dos agentes econômicos.
Entretanto, para que o avanço regulatório se traduza em benefícios efetivos para o transporte e a logística, é fundamental que as políticas públicas considerem as particularidades do setor. A descarbonização precisa ser construída com diálogo entre governo, produtores de energia, indústria, transportadores e demais integrantes da cadeia logística. As decisões devem levar em conta não apenas os objetivos ambientais, mas também os custos, a infraestrutura disponível e os impactos sobre a competitividade do país.
Na FETRANSUL, entendemos que a sustentabilidade e a eficiência precisam avançar juntas. O transporte rodoviário de cargas tem papel indispensável no desenvolvimento econômico e deve participar ativamente da construção de soluções que conciliem responsabilidade ambiental e viabilidade operacional.
A iniciativa da Petrobras é um sinal positivo de que o mercado brasileiro de biometano está avançando e pode ganhar escala nos próximos anos. O desafio agora é transformar esse movimento em oportunidades concretas, com investimentos, planejamento e políticas capazes de estimular a oferta e ampliar o acesso a alternativas energéticas.
A transição energética não acontecerá de uma hora para outra. Ela será resultado de decisões consistentes, inovação e cooperação entre os diferentes setores da economia. O Brasil tem condições de aproveitar seu potencial de produção de energia renovável para construir uma logística mais eficiente, competitiva e sustentável. Para isso, precisamos transformar oportunidades como essa em soluções viáveis para quem move a economia todos os dias.



