Como as empresas de logística estão usando IA para reduzir custos e aumentar a sustentabilidade

Especialistas apontam que a tecnologia, aliada a um banco de dados organizado, permite melhorar processos como planejamento de rotas, organização de estoques e manutenção preditiva

Em um cenário onde combustível, manutenção e armazenagem pressionam os custos da logística, o uso de dados e tecnologia ganha protagonismo na busca por eficiência e sustentabilidade. Nesse contexto, a evolução da inteligência artificial (IA) surge como aliada estratégica para o setor.

Especialistas apontam que a ferramenta, combinada a um banco de dados organizado, aprimora processos como planejamento de rotas, gestão de estoques e manutenção preditiva.

O professor do Núcleo de Engenharia Organizacional (NEO) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Néstor Fabián Ayala afirma que a tecnologia otimiza a operação de ponta a ponta, antecipando demandas e traçando rotas eficientes que reduzem tempo, custos e emissões:

— Hoje, a IA consegue unir redução de custos e impacto ambiental positivo. Diminuímos o consumo de combustível e otimizamos o uso de pneus, reduzindo rejeitos. Em alguns casos, substituímos três viagens diárias por apenas uma, gerando um ganho ambiental expressivo — destaca.

O presidente da Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul), Francisco Cardoso, afirma que a IA já está sendo usada no setor no Estado. O executivo destaca que, durante muitos anos, a tecnologia foi muito eficiente para mostrar o que já aconteceu. Com a IA, o ramo começa a trabalhar com o futuro, antecipando cenários e aumentando a eficiência. Segundo ele, o grande desafio inicial é organizar os dados internos para gerar previsibilidade. Empresas mais avançadas já integram esses dados com informações de clientes para refinar o atendimento.

— O grande desafio dessas empresas é primeiro organizar e entender os próprios dados. Depois, transformar esses dados em informação para trabalhar o futuro, a previsibilidade. Mas já tem empresas que estão num estágio mais avançado, integrando esse banco de dados internos com um banco de dados externo, por exemplo, de clientes. Com isso já é possível começar a atender também a demanda do cliente com inteligência artificial.

Do galpão à estrada

Interlink Cargo é uma das empresas de logística do Estado que aplica a IA dentro da operação. Diego Vara / Divulgação

Embora seja comum associar a IA apenas aos caminhões nas rodovias, sua aplicação começa muito antes. Por meio de agentes que se comunicam entre si, a tecnologia integra áreas, auxiliando a traçar rotas mais eficazes, diminuir o consumo de combustível e ajudar na manutenção das frotas. 

Mas, longe das estradas, a IA também pode reorganizar o planejamento e os fluxos internos cruciais como compras, estoque, produção e logística. Também auxilia no atendimento a novas demandas ou problemas enviados por clientes.

Nos galpões, veículos autônomos transportam mercadorias, enquanto algoritmos otimizam a separação de produtos e calculam o tamanho exato de embalagens, evitando desperdícios. Além de cortar custos e mitigar impactos ambientais, a automação libera profissionais para atividades de maior valor estratégico, reforça o professor Ayala:

— Otimizamos a rota interna para que robôs busquem os produtos onde são necessários. Isso retira colaboradores de tarefas repetitivas e os direciona para funções de maior valor dentro da fábrica.

Fundada pelo presidente da Fetransul, em 1992, a Interlink Cargo é uma das empresas de logística do Estado que aplica a IA dentro da operação. Desde o ano passado, a companhia adota a tecnologia em áreas como sistema de cotação e propostas, rastreamento de viagens e análise de dados dos operadores e do consumo de combustível por topografia em rotas do Mercosul. 

— O combustível representa 40% do nosso custo e sofreu altas significativas. Analisamos o relevo e o tipo de caminhão para prever o consumo e orientar o motorista, unindo eficiência e sustentabilidade — explica Lucas Vidal Cardoso, diretor comercial da empresa.

Além desse impacto, Cardoso cita a transferência de colaboradores de tarefas repetitivas para funções de tomada de decisão de alto valor e programas de treinamento e trilhas de aprendizado para novos funcionários como outros ganhos a partir do uso de IA na empresa. 

O outro lado da balança

Embora o uso maior de IA facilite processos, diminua custos e tenha o potencial de reduzir as emissões de dióxido de carbono e o descarte de resíduos, existe um sinal de alerta sobre o alto poder computacional necessário para fazer esses modelos rodarem e o consumo de energia associado a esse processamento. Se a tecnologia for aplicada sem critérios rígidos, o impacto ambiental gerado pela computação pode reduzir parte dos ganhos obtidos com a eficiência no asfalto.

O professor da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Dalvan Jair Griebler alerta para o reflexo ambiental dos data centers

Precisamos de poder computacional e muita energia para refrigeração. Podemos reduzir poluentes nos caminhões, mas gerar impacto pelo uso massivo e desnecessário da IA. Por isso, exige-se um processo rigoroso de engenharia e profissionais altamente qualificados — conclui.

Griebler também alerta que o setor de transporte e logística está passando por uma importante fase de amadurecimento tecnológico. 

— Nós ainda estamos saindo daquela euforia do uso de IA. Que é euforia de todo mundo usando inteligência artificial. Agora, vem a fase de ver se isso faz sentido pro meu negócio. Será que isso é sustentável financeiramente (…) Não adianta eu botar uma tecnologia que vai me gerar muita despesa. 

O docente destaca que a tecnologia não deve ser encarada como uma solução isolada ou “mágica”, mas como uma ferramenta que precisa ser integrada aos métodos e técnicas já utilizados na logística.

Principais aplicações da IA na logística

  • Auxilia na previsão da demanda futura do mercado, mitigando falta de produtos, excesso de estoque e capital parado.
  • Otimiza a definição de rotas para reduzir o tempo de entrega, custos com combustível e emissões poluentes.
  • Permite o monitoramento de veículos, via sensores e telemetria, para prever a recapagem de pneus de forma mais sustentável, por exemplo.
  • A IA pode auxiliar robôs autônomos na localização de mercadorias e a definir o tamanho exato de caixas em processos internos.
  • Agentes de IA podem conectar áreas como compras, produção e estoque, além de serem utilizados em setores como finanças, RH e atendimento ao cliente.

Fonte: GZH / Anderson Aires

Foto: Interlink Cargo / Divulgação

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