A escalada recente do preço do diesel, impulsionada pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio e pela valorização do petróleo no mercado internacional, começa a repercutir em diferentes elos da economia gaúcha. Do transporte de cargas ao abastecimento de supermercados, entidades do setor produtivo alertam que o combustível – principal insumo da logística brasileira – tende a pressionar o custo do frete e, em consequência, o preço de produtos e serviços nas próximas semanas.
A tensão global aumentou após a intensificação do conflito, protagonizado por Irã, Israel e Estados Unidos, e a possibilidade de interrupções no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de energia do mundo. O cenário elevou o preço do barril de petróleo e já começou a refletir nos combustíveis no Brasil: na última sexta-feira (13), a Petrobras anunciou reajuste de cerca de R$ 0,38 por litro no diesel vendido às distribuidoras, o que representa aumento aproximado de 13,9% na refinaria.
Ainda assim, para o professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Gustavo Inácio de Moraes, o impacto sobre o frete não depende apenas do preço do petróleo, mas também do comportamento do câmbio.
“Não é só o diesel que afeta a expectativa de preço do frete. O câmbio também pesa muito. Mesmo que o petróleo se mantenha estável, se o real se desvalorizar em um cenário internacional turbulento, ainda teremos efeitos relevantes vindos da economia global”, afirma.
Segundo ele, alguns reajustes já começam a aparecer no mercado, ainda que de forma preventiva. “Em algumas regiões já vemos aumentos entre 10% e 20% no preço do diesel. Se o conflito durar pouco tempo, os efeitos tendem a ser limitados. Mas, se houver prolongamento da guerra, essas pressões podem se consolidar”, completa.
No Rio Grande do Sul, dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicam alta nos dois principais tipos de diesel. O preço médio do litro do S10 passou de R$ 6,23 para R$ 6,78 – aumento de 8,8%. Já o S500 subiu de R$ 6,16 para R$ 6,70, avanço de 8,7%, segundo as duas pesquisas semanais divulgadas pela agência em março.
No setor de transporte, o combustível representa a principal parcela dos custos operacionais. Por isso, qualquer alteração significativa tende a ser repassada relativamente rápido aos contratos de frete. E, de acordo com Moraes, o ajuste costuma aparecer primeiro nos indicadores de preços no atacado.
“O setor de transporte trabalha muito com contratos de curta duração. Os fretes costumam ser reajustados relativamente rápido – normalmente antes de um mês. Primeiro vemos esse efeito na inflação do atacado e depois ele chega ao consumidor”, explica.
A avaliação é compartilhada por entidades do setor logístico. Em nota, o Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística no Rio Grande do Sul (Setcergs) argumenta que qualquer alteração relevante no diesel gera impacto imediato na estrutura de custos das transportadoras.
“O transporte rodoviário opera com margens reduzidas e não possui capacidade de absorver aumentos expressivos e repentinos em seu principal insumo operacional”, informou a entidade, que orienta as empresas a manter diálogo com clientes para eventual recomposição do valor do frete.
Hoje, cerca de 85% da produção gaúcha circula por rodovias, o que amplia o peso do diesel sobre toda a cadeia produtiva. Diante da escalada do combustível, a Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul) solicitou ao governo estadual que avalie uma redução temporária do ICMS sobre ele.
Segundo a entidade, o combustível já acumula aumentos próximos de 30% desde o início do período de instabilidade internacional, pressionando diretamente os custos logísticos. Para o presidente da federação, Francisco Cardoso, discutir o preço do diesel significa discutir o custo de circulação de mercadorias em todo o País.
“Quando o diesel sobe nessa velocidade, nenhum setor consegue absorver esse impacto sem revisar contratos e renegociar tarifas”, afirma. Ele destaca ainda que o combustível representa cerca de 40% dos custos variáveis do transporte rodoviário de cargas, o que torna o setor especialmente sensível às oscilações do mercado energético.
Ainda, para além da pressão sobre fretes e logística, economistas alertam para o possível impacto inflacionário do diesel caso o conflito internacional se prolongue: combustíveis e energia representam entre 5% e 8% do peso do IPCA, o principal índice de inflação do Brasil. Um aumento significativo nesses itens pode influenciar a trajetória dos preços e até mesmo a política de juros.
Agronegócio deve sentir primeiro
Entre os setores produtivos, o agronegócio tende a ser um dos primeiros a sentir os efeitos da alta. O motivo é a combinação de grande consumo de diesel nas máquinas agrícolas e a necessidade de transporte para escoamento da safra.
“Estamos em período de escoamento para os portos, o que exige muito transporte rodoviário. Além disso, o setor depende de diesel para tratores e máquinas. Por isso, o agronegócio tende a sentir primeiro esse impacto”, explica Moraes.
Ele ressalta ainda que fertilizantes e outros insumos agrícolas também têm ligação com derivados de petróleo ou com regiões produtoras do Oriente Médio, o que amplia a exposição do setor às turbulências internacionais.
Supermercados já monitoram impactos

PATRÍCIA COMUNELLO/ESPECIAL/JC
No comércio, a preocupação é com o efeito em cascata sobre os preços dos alimentos e produtos básicos. O presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Lindonor Peruzzo Júnior, afirma que a alta recente do diesel já começa a preocupar o setor.
“O impacto do combustível é muito significativo. Já estamos vendo aumentos na casa de 11% desde o início da guerra e isso provavelmente vai aparecer nos produtos no curto e médio prazo”, afirma.
Segundo ele, as empresas têm buscado otimizar rotas e reduzir o consumo de combustível para tentar evitar repasses imediatos aos consumidores. “Sabemos que o transporte rodoviário é a base da logística do País. Estamos acompanhando de perto esse cenário e atentos às medidas que possam reduzir a pressão sobre o preço na bomba”, acrescenta.
Transporte coletivo também sente pressão
No transporte de passageiros, o impacto já tem dimensão concreta. A Associação dos Transportadores Intermunicipais Metropolitanos de Passageiros (ATM) estima que a alta do diesel deve gerar custo adicional de cerca de R$ 700 mil apenas em março para as operadoras que atuam na Região Metropolitana de Porto Alegre.
No entanto, apesar do aumento, a entidade afirma que não há risco imediato de paralisação ou redução de linhas. Ainda assim, o momento é considerado delicado, já que o setor enfrenta dificuldades financeiras desde a pandemia.
Fonte: Jornal do Comércio – Gabriel Margonar / Foto: EVANDRO OLIVEIRA/JC



