6º Fórum ITL debate cibersegurança, inteligência artificial e proteção de dados no transporte

Especialistas e representantes do setor discutiram riscos digitais, gestão de incidentes e continuidade das operações

A cibersegurança deixou de ser uma questão restrita à área de tecnologia para ocupar lugar central nas decisões de negócios e na agenda das altas lideranças das organizações. Essa foi uma das principais conclusões das discussões do 6º Fórum ITL de Inovação do Transporte, realizado nesta quarta-feira (23), na sede do Sistema Transporte, em Brasília.

Ao reunir especialistas e representantes do setor, o evento mostrou que proteger dados, sistemas e operações significa também preservar a continuidade dos negócios, reduzir riscos e fortalecer a capacidade das empresas de responder a um ambiente digital cada vez mais complexo.

Ao abordar a relação entre inteligência artificial e segurança digital na palestra magna do evento, o consultor-chefe de Segurança da Microsoft, Thiago Galvão, destacou que a expansão da tecnologia já é uma realidade consolidada. Os investimentos aumentam, os custos de uso diminuem e o consumo de ferramentas e modelos de IA cresce rapidamente. Segundo dados apresentados pelo especialista, 58% dos usuários de IA afirmam estar produzindo trabalhos que não conseguiriam realizar há um ano, enquanto 62% das organizações já experimentam agentes de inteligência artificial.

Para ele, no entanto, aproveitar o potencial da tecnologia exige mais do que simplesmente adotá-la. “A oportunidade não é apenas adotar IA, é construir a cultura, os incentivos e os fluxos que permitam à IA mudar a forma como o trabalho é realizado”, destacou.

Nesse cenário, segurança e inovação precisam caminhar juntas. Na avaliação do especialista, não deveria existir uma escolha entre inovar e proteger os sistemas. Ao contrário, a segurança precisa estar incorporada desde o início aos processos de adoção da inteligência artificial.

Já o pesquisador do Cyberlab, do Insper, e sócio da Scion Security, João Eduardo Aparecido Luisi Vieira, alertou que, no setor de transporte, uma vulnerabilidade pode provocar perdas financeiras, interrupções operacionais e até facilitar crimes tradicionalmente associados à segurança física.

Segundo ele, essa relação entre segurança física e digital fica ainda mais evidente nos casos de roubo de cargas. O especialista citou um alerta divulgado pelo FBI em abril de 2026 sobre o chamado cyber-enabled cargo theft, ou roubo de cargas facilitado por meios digitais. De acordo com os dados apresentados, houve aumento de 60% desse tipo de ocorrência em um ano.

Uma das principais portas de entrada é o e-mail corporativo. Criminosos criam endereços falsos, assumem a identidade de funcionários ou empresas e realizam solicitações fictícias para desviar mercadorias. O phishing, técnica utilizada para induzir pessoas a fornecer informações ou realizar ações indevidas, é uma das ferramentas empregadas nesses golpes.

Com o avanço da inteligência artificial, esses ataques também se tornaram mais sofisticados. Por isso, segundo o professor, a proteção não pode depender exclusivamente de sistemas tecnológicos. “Para phishing, é necessário treinar também as pessoas, não apenas o sistema. Um único funcionário que forneça uma credencial pode comprometer toda a organização”, explicou.

Painéis com empresários e especialistas

Com participação de Lucas Correia, gerente de Segurança Cibernética e SRE da Gol Linhas Aéreas; Leandro Marques, superintendente de Segurança da Informação do Itaú Unibanco; Rodrigo Ritto, gerente regional de Vendas da Palo Alto Networks; e Eduardo Batista, líder de Cibersegurança e Privacidade da PwC Brasil, o painel “Cibersegurança: Governança, Gestão de Riscos e Conformidade” discutiu o aumento da escala e da velocidade dos ataques cibernéticos, impulsionado também pelo uso da inteligência artificial, e os caminhos para fortalecer a proteção das organizações.

Entre os pontos abordados estiveram a importância de uma governança capaz de definir prioridades e orientar investimentos, a integração das ferramentas de segurança, o uso da IA na defesa, a preparação e qualificação das equipes, a realização de testes e a capacidade de resposta e recuperação diante de incidentes. Os participantes também destacaram a necessidade de traduzir os riscos cibernéticos em informações claras para a alta administração, permitindo decisões mais bem fundamentadas sobre prevenção, proteção e continuidade das operações.

Por sua vez, o painel “Quando o sistema cai, a operação para: impactos reais na logística, nos passageiros e na infraestrutura” reuniu Rovilso Schenatto, coordenador de Infraestrutura de TI na Transportes Bertolini; Daniele Capobiango, presidente executiva da Fenaval; Luiz Rodrigues, vice-presidente de Tecnologia da Informação da DHL Supply Chain Brasil; Armando Neto, head de Riscos e Compliance da JCA; e Gilson Cappellano, assessor técnico do Metrô de São Paulo, para discutir os impactos de falhas cibernéticas e tecnológicas sobre diferentes operações de transporte.

Os participantes compartilharam experiências sobre interrupções de sistemas, dependência de redes e dados, integração entre tecnologias e os efeitos que uma falha pode provocar sobre cargas, passageiros e até sobre a segurança física. Também foram destacadas a necessidade de mapear processos e ativos críticos, estabelecer redundâncias e planos de contingência, realizar simulações de crise, integrar sistemas e investir continuamente na capacitação dos colaboradores.

A sessão “Especialista em Foco – Regulação e Proteção de Dados no Ambiente Digital”, com a professora da UnB e do IDP Laura Schertel, discutiu os impactos da digitalização sobre o uso e a proteção de dados no transporte. A especialista abordou a coleta crescente de informações por tecnologias como GPS, sensores, câmeras e reconhecimento facial, destacando a necessidade de conciliar inovação, segurança e proteção dos titulares.

Entre os temas tratados estiveram a aplicação da LGPD, a adoção de práticas de governança e gestão de riscos, a proteção de dados desde o desenho dos sistemas e os cuidados com usos excessivos de tecnologias de monitoramento.

Abertura institucional

A abertura institucional do 6º Fórum ITL de Inovação do Transporte destacou a necessidade de preparar o setor para os riscos associados à crescente digitalização das operações. O presidente do Sistema Transporte, Vander Costa, ressaltou que a dependência de tecnologias em áreas como gestão, frota, logística, atendimento e processos administrativos ampliou a exposição das empresas a ameaças digitais.

“Nenhuma organização está imune. O que faz diferença é o nível de preparação para prevenir incidentes, identificar vulnerabilidades e responder de forma rápida quando um problema acontece.”

O diretor executivo do ITL, João Victor Mendes, destacou que a incorporação de sistemas de gestão, automação, inteligência artificial, plataformas digitais e dados transformou a maneira como as empresas operam. Para ele, discutir cibersegurança significa pensar não apenas em proteção, mas também na capacidade de manter as operações diante de falhas.

“Não esperamos sair daqui com uma fórmula pronta. Mas espero que saiamos mais atentos, mais preparados e fazendo as perguntas certas dentro das nossas próprias organizações.”

Já a diretora adjunta do ITL, Eliana Costa, destacou que o Fórum foi criado como um espaço de troca e aprendizado sobre temas que impactam o setor. Ao abordar a escolha da cibersegurança e da gestão de riscos como tema desta edição, ressaltou que os efeitos de uma falha tecnológica ultrapassam os sistemas e podem atingir diretamente a operação e as pessoas.

“Quando um desses sistemas para, não é só a tecnologia que para. Pode ser um veículo que deixa de circular, uma carga que não chega ao destino, um serviço que é interrompido.”

Eliana também convidou os participantes a aproveitar o encontro para compartilhar experiências e refletir sobre os riscos de suas próprias organizações.

A importância de discutir esses temas também foi percebida pelos participantes do evento, que ressaltaram a relevância de preparar as empresas para as mudanças que já estão impactando o setor.

O gerente financeiro da Transporte Coletivo Glória, Osvaldo Santos, afirmou que o Fórum é importante para apoiar os empresários neste momento de avanço da inovação e, sobretudo, da inteligência artificial.

“O setor tem uma demanda crescente por novas tecnologias, e encontros como este são importantes para incentivar as empresas a conhecer e adotar essas soluções.”

Já a diretora da Transflor, Ana Flor, ressaltou a possibilidade de acompanhar as transformações tecnológicas e antecipar os desafios que podem surgir para o setor.

“Para mim, a principal importância do evento é estarmos atualizados sobre um tema que hoje está presente em praticamente tudo: na bilhetagem, nos programas internos e na gestão das informações. Precisamos entender o que está acontecendo nas grandes cidades e quais dificuldades podemos enfrentar para nos anteciparmos aos problemas. Como sou de Natal, uma cidade menor, esse contato com outras realidades também nos ajuda a enxergar o que pode estar por vir e a nos preparar melhor.”

Por Chico Monteiro

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