Em alusão ao 18 de maio, atividade reuniu colaboradores e parceiros institucionais em um momento de conscientização sobre prevenção, atuação em rede e enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes
O SEST SENAT promoveu, nesta segunda-feira (18), uma ação interna de sensibilização em alusão ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A atividade reuniu colaboradores do Sistema Transporte em um momento de reflexão sobre o papel coletivo na proteção da infância e da adolescência.
A programação contou com a apresentação de 32 crianças, entre 3 e 4 anos, atendidas pelo Instituto Pró-Vida no âmbito do projeto Eu Me Protejo. Por meio da música, da expressão corporal e de atividades educativas voltadas à primeira infância, as crianças transmitiram mensagens sobre autocuidado, respeito e proteção de forma sensível e educativa.
O encontro reforçou a importância de fortalecer, também dentro das instituições, uma cultura de proteção e respeito aos direitos de crianças e adolescentes. A iniciativa evidencia que o enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes passa pela conscientização da sociedade e pela mobilização permanente dos ambientes institucionais.
Na abertura, o diretor executivo nacional interino do SEST SENAT, Vinicius Ladeira, destacou o compromisso institucional com o tema e a necessidade de atuação conjunta. “Quando o assunto é complexo, não se resolve de forma isolada. É preciso unir esforços, conhecimento e parcerias para proteger quem não deu causa a nenhuma situação de violência”, afirmou.
Ele também ressaltou o papel estratégico do setor transportador. “A grande maioria dos profissionais do transporte pode atuar como agente de denúncia, informação e proteção. O setor tem condições de contribuir efetivamente para o enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes. Nenhuma criança está longe demais para ser protegida”, declarou. O diretor de Relações Institucionais da CNT, Valter Souza, também participou do evento.
O presidente do Instituto Pró-Vida, Celiomar Oliveira, destacou a importância da prevenção e do trabalho de conscientização. Segundo ele, muitas vítimas não reconhecem a violência por associarem os abusos a demonstrações de afeto de pessoas próximas. “A maioria das crianças abusadas sofre violência dentro de casa. Muitas acreditam que se trata de carinho de familiares. A melhor forma de evitar que o problema se agrave é investir na prevenção”, afirmou.
A assistente social do Instituto Pró-Vida, Maria Cristina de Sousa, apresentou experiências realizadas em escolas do Recanto das Emas com crianças na primeira infância. Segundo ela, um dos principais desafios foi preparar educadores e famílias para abordar o tema com o público infantil. “As crianças conseguem se proteger, desde que tenham orientação adequada e uma rede de apoio”, explicou.
A coordenadora de promoção social da Unidade Operacional do SEST SENAT de Samambaia, Fernanda Aguiar, abordou os impactos da violência sexual no desenvolvimento de crianças e adolescentes e os desafios do atendimento psicossocial. Ela destacou que muitos casos permanecem invisíveis por ocorrerem em ambiente familiar. “O abusador, muitas vezes, é quem deveria proteger. Por isso, denunciar é fundamental”, afirmou.
10 anos do Proteção
O momento dialoga diretamente com a trajetória do projeto Proteção, iniciativa nacional desenvolvida pelo SEST SENAT em parceria com a Childhood Brasil há 10 anos. Ao longo dessa década, o projeto consolidou uma atuação voltada à prevenção, à sensibilização e ao fortalecimento de redes de proteção à infância e à adolescência em todo o país.
O Proteção parte do entendimento de que enfrentar a violência sexual contra crianças e adolescentes exige atuação integrada, mobilização social e construção permanente de ambientes protetivos.
Documentário especial
Durante o evento, também foi divulgado o teaser da série documental Proteção 10 Anos: Compromisso que Transforma, que estreia nessa segunda (18), e será veiculado na plataforma Globoplay. Acesse.
Sessão especial
A Câmara Federal realiza uma sessão especial em homenagem ao Dia de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças nessa terça-feira (19), às 9h. A solenidade será uma oportunidade para aumentar a conscientização sobre a gravidade do abuso e da exploração sexual.
Como o Proteção atua?
O programa Proteção tem como objetivo transformar as Unidades Operacionais do SEST SENAT em unidades protetoras. A iniciativa alcança as 174 Unidades da instituição, que estão aptas a desenvolver ações de prevenção e enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes.
O projeto promove os direitos de crianças e adolescentes em todo o país. A iniciativa visa conscientizar e sensibilizar os trabalhadores do setor de transporte e toda a sociedade sobre a proteção de crianças e adolescentes contra a exploração sexual, passando a atuar como agentes de proteção em todo o Brasil, por meio de:
- capacitação temática de profissionais nas Unidades Operacionais;
- ações de sensibilização sobre a violência sexual;
- incentivo e orientação para denúncias;
- realização de campanhas, palestras, cinedebates e rodas de conversa.
Denuncie
Em caso de suspeita ou confirmação de violência contra crianças ou adolescentes, procure imediatamente um dos seguintes canais de denúncia:
- Polícia Militar (190)
- Polícia Rodoviária Federal (191)
- Disque Direitos Humanos (100)
Veja o artigo sobre o tema originalmente publicado na Folha de S.Paulo desta segunda-feira (18), assinado por Nicole Goulart, diretora executiva nacional do SEST SENAT, e por Eva Dengler, superintendente de Programas da Childhood Brasil.
A proteção à infância avança quando o silêncio recua
Nicole Goulart – Diretora executiva nacional do SEST SENAT
Eva Dengler – Superintendente de Programas da Childhood Brasil
O Brasil convive há décadas com uma realidade que permanece cercada de silêncio e tabu: a violência sexual contra crianças e adolescentes. Nesta segunda-feira (18), quando o país marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, não basta lembrar. É preciso agir. Porque os números, por si só, já não permitem indiferença.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mais de 87 mil casos de estupro foram registrados no Brasil em 2025. Desses, 77,7% das vítimas eram crianças e adolescentes de até 14 anos. Embora grande parte dos casos tenha origem em relações de confiança e proximidade, crianças e adolescentes também estão expostos a situações de exploração e aliciamento em diferentes contextos de vulnerabilidade social.
Em áreas de grande circulação de pessoas, como rodovias e pontos de parada, essa vulnerabilidade exige atenção permanente e fortalecimento das redes de proteção. Esses espaços podem se tornar ambientes de risco e, justamente por isso, demandam ações preventivas e atuação articulada entre poder público, sociedade civil e setores estratégicos, como o transporte.
Pela sua presença em diferentes territórios e capilaridade, o transporte está diretamente conectado a dinâmicas sociais onde a exploração sexual pode ocorrer e, portanto, também deve assumir papel ativo na solução. Não por acaso, o setor tem avançado na consolidação de uma posição clara de intolerância a qualquer forma de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. Motoristas e outros profissionais igualmente exercem função importante na identificação de situações suspeitas, no encaminhamento de denúncias e no fortalecimento das redes de proteção.
Diante dessa complexidade, não há como acreditar em soluções simples. O enfrentamento efetivo passa pela articulação entre poder público, sociedade civil e setor privado e, sobretudo, pela disposição de romper o silêncio que ainda cerca essa violência. Informação sem ação não transforma realidades.
Experiências recentes mostram que a articulação entre diferentes setores também pode ampliar a capacidade de prevenção e resposta. Nas rodovias federais, levantamentos da Polícia Rodoviária Federal identificaram 17.687 pontos vulneráveis à exploração sexual de crianças e adolescentes, evidenciando a dimensão do problema em áreas de grande circulação de pessoas e mercadorias. Nesse cenário, iniciativas como o Projeto Proteção, desenvolvido há dez anos pelo Sest/Senat em parceria com a Childhood Brasil, buscam fortalecer ações de conscientização e prevenção junto aos profissionais do transporte e às comunidades impactadas, alcançando centenas de milhares de pessoas em todo o país.
Mesmo com tanto esforço, ainda estamos aquém do necessário. Mais do que ampliar mecanismos formais, é fundamental fortalecer políticas públicas de prevenção, ampliar o acesso à informação e incentivar a utilização dos canais de denúncia já existentes. A subnotificação ainda é uma barreira significativa, sustentada pelo medo, pela dependência emocional e econômica e, muitas vezes, pelo silêncio imposto dentro do próprio ambiente familiar. É preciso dizer com todas as letras que o silêncio não protege: ele normaliza a violência e sustenta a impunidade. Não por acaso, 69% dos abusos sexuais contra crianças e adolescentes acontecem dentro de casa.
Também é urgente preparar profissionais de diferentes áreas para reconhecer sinais de violência e agir diante deles, além de ampliar o debate sobre o impacto do ambiente digital, onde novas formas de exploração emergem com rapidez e exigem respostas igualmente ágeis. A proteção de crianças e adolescentes precisa acompanhar as transformações da sociedade.
Este 18 de maio deve ser mais do que um marco simbólico. Deve ser um ponto de inflexão. Um lembrete de que proteger a infância não é uma escolha. É um dever coletivo. Não há desenvolvimento possível em um país que ainda não consegue garantir a proteção plena de suas crianças. E não há justificativa para a omissão diante de uma violência tão próxima quanto negligenciada.
Romper o silêncio é o primeiro passo. Sustentar essa decisão, todos os dias, é o que pode transformar essa realidade.
Por Agência CNT Transporte Atual



