Redução de jornada no transporte: sem transição e sem profissionais, o custo chega à mesa do brasileiro

A FETRANSUL toma posição clara no debate nacional sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. Trata-se de uma discussão legítima, porque toda sociedade deve buscar melhores condições de trabalho, mais qualidade de vida e relações laborais mais modernas.

No entanto, mudanças dessa magnitude precisam ser analisadas com responsabilidade, com base em evidências e levando em conta as especificidades de cada atividade econômica. No transporte, decisões uniformes podem produzir efeitos severos sobre custos, emprego, produtividade e abastecimento.

O que diz o estudo técnico citado pela CNT

  • Reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas pode gerar impacto de R$ 11,88 bilhões no setor de transporte no longo prazo;
  • Sem redução proporcional de salários, o valor da hora trabalhada subiria cerca de 10%;
  • No transporte, o efeito direto estimado é de elevação de 8,6% nos custos com pessoal;
  • Para manter o nível de serviço, seria necessária a contratação de aproximadamente 240 mil trabalhadores adicionais.

Um setor essencial, contínuo e sensível a custos

O transporte de cargas não opera em janelas curtas nem em ciclos simples. Ele sustenta cadeias produtivas, abastece cidades, conecta indústrias, viabiliza exportações e garante a circulação de insumos, alimentos e bens de consumo. No Rio Grande do Sul, essa realidade é ainda mais evidente, dada a forte dependência do modal rodoviário para a movimentação de cargas.

Por isso, qualquer aumento abrupto de custo ou redução de produtividade no setor repercute muito além das empresas transportadoras. O efeito alcança embarcadores, indústrias, comércio, agronegócio e, ao final, chega ao consumidor.

O problema se agrava porque já faltam profissionais

A proposta de redução da jornada incide sobre um setor que já convive com escassez de mão de obra. Levantamento da CNT aponta que 65,1% das empresas do setor enfrentam dificuldades para contratar motoristas. No transporte rodoviário de cargas, 44,6% das empresas têm vagas abertas.

Isso significa que o desafio não é apenas financeiro. Mesmo que houvesse capacidade de contratação imediata, o mercado não dispõe hoje, em volume suficiente, de profissionais qualificados para absorver uma expansão brusca das escalas e da necessidade de pessoal.

O risco é elevar custos, pressionar preços e fragilizar pequenas empresas

O estudo também chama a atenção para o perfil do setor: 90,5% das empresas de transporte têm até nove empregados. São operações com margens mais estreitas e menor capacidade de absorver choques regulatórios. Atualmente, 47,3% do valor adicionado bruto do setor já é destinado ao pagamento de pessoal.

Nesse contexto, reduzir jornada sem contrapartida de produtividade pode comprimir margens, adiar investimentos, aumentar informalidade e, em casos extremos, inviabilizar operações. O resultado concreto tende a ser mais custo logístico e mais pressão sobre preços em toda a economia.

A defesa da FETRANSUL

A FETRANSUL entende que a modernização das relações de trabalho é uma agenda válida, mas defende que ela seja construída com equilíbrio, previsibilidade e respeito às diferenças entre os setores.

A Federação sustenta que alterações dessa natureza devem priorizar a negociação coletiva, permitindo soluções adequadas à realidade operacional de cada atividade. No transporte, onde o serviço é contínuo, intensivo em mão de obra e essencial ao abastecimento, não cabe uma fórmula única para todos.

O que a FETRANSUL apoia

  • Melhoria das condições de trabalho com base em diálogo responsável;
  • Negociação coletiva como instrumento de ajuste por setor;
  • Avanço da produtividade, qualificação e formação de motoristas;
  • Debate técnico, transparente e sem soluções simplistas.

O que a FETRANSUL alerta

  • Elevação de custos sem ganho real de eficiência;
  • Mais dificuldade para preencher vagas já existentes;
  • Risco de informalidade e fragilização de pequenas empresas;
  • Repasse do aumento logístico ao preço final dos produtos.
“Melhorar as condições de trabalho é um objetivo legítimo. Mas, no transporte, reduzir jornada sem ampliar a oferta de profissionais e sem ganho de produtividade pode significar mais caminhões parados, aumento do custo logístico e impacto direto no preço dos produtos. O Brasil precisa de soluções equilibradas, construídas com responsabilidade e diálogo.”   Por isso, a FETRANSUL convoca o setor público e o Congresso a construírem essa solução junto com quem opera o transporte todos os dias.

A FETRANSUL seguirá contribuindo com esse debate em defesa de um transporte eficiente, formal, competitivo e socialmente responsável.

Francisco Cardoso

Presidente da FETRANSUL

Base técnica: estudo “Redução de jornada, mudança de escalas e bem-estar social no setor de transportes”, divulgado pela CNT em 14 de abril de 2026.

Compartilhe esta notícia

WhatsApp
Facebook
Twitter
LinkedIn