O transporte de cargas precisa entrar na agenda do país

Francisco Cardoso

O Brasil se prepara para mais uma eleição. Vem aí um debate eleitoral intenso, amplo e, por vezes, desviado do que realmente interessa. Saúde, segurança, educação, inflação, todos esses são assuntos centrais. Mas há um tema estrutural, decisivo para o crescimento do país, que volta e meia desaparece do centro das discussões: a logística. E, dentro dela, o transporte rodoviário de cargas.

Não se trata de uma pauta de um setor específico. É uma questão nacional. Hoje, cerca de 65% de tudo o que o Brasil produz e consome passa pelas estradas. No Rio Grande do Sul, essa dependência é ainda maior: aproximadamente 85% das mercadorias circulam por rodovias. Em outras palavras, quando o transporte enfrenta dificuldades, não é apenas o transportador que se vê afetado. Os impactos atingem a indústria, o comércio, o agronegócio, o consumidor e a economia inteira.

O custo logístico brasileiro já consome 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB). É um índice incompatível com um país que pretende ser competitivo e atrair investimentos. Em economias mais eficientes, esse percentual fica próximo de 8% a 10%. Aqui, seguimos convivendo com uma combinação explosiva: diesel representando até 40% do custo operacional; pedágios que, em determinados trechos, se aproximam ou até superam o gasto com combustível; rodovias em condições insuficientes; insegurança jurídica; excesso de burocracia; falta de motoristas; e custos crescentes de seguro, especialmente em razão da criminalidade e dos eventos climáticos extremos.

Não é possível continuar tratando esses fatores como problemas isolados. O país precisa de um plano logístico de longo prazo, com investimentos efetivos e coordenação entre União, estados e municípios. É necessário ampliar e recuperar a infraestrutura rodoviária, modernizar concessões, rever modelos de pedágio, estimular a formação de novos motoristas, simplificar normas e criar um ambiente regulatório estável. Também é indispensável integrar melhor os modais, fortalecendo ferrovias, hidrovias e portos, mas sem ignorar que o transporte rodoviário continuará sendo, por muitos anos, a espinha dorsal da economia brasileira.

Nem tudo são indicadores. Durante a pandemia de COVID-19, quando cidades fecharam, cadeias produtivas pararam e fronteiras foram restringidas, o transporte de cargas continuou operando. Caminhões seguiram abastecendo hospitais, supermercados, farmácias e famílias. O mesmo ocorreu nas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul. Em meio ao colapso de estradas, pontes e cidades inteiras, milhares de toneladas de doações e suprimentos chegaram aos municípios atingidos graças ao esforço de empresas e motoristas, muitas vezes em condições extremas.

Esses episódios deixam uma lição inequívoca. O transporte não é apenas um item de custo. É parte da solução. É uma atividade estratégica para a soberania, para a segurança alimentar, para a geração de empregos e para a resiliência do país. Agora, o setor não pede privilégios. Cobra condições para continuar fazendo aquilo que sempre fez: manter o país em movimento.

Presidente da Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul)

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