‘Maior custo do transporte rodoviário hoje é o tempo’, diz presidente da Fetransul

A Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas do Rio Grande do Sul (Fetransul) completa 35 anos em um momento em que os desafios do setor vão muito além do transporte de mercadorias. Para o presidente da entidade, Francisco Carlos Gonçalves Cardoso, o maior custo da logística brasileira hoje é o tempo perdido em rodovias precárias, congestionamentos e gargalos de infraestrutura, que reduzem a produtividade e aumentam as despesas das empresas. 

Em um Estado em que cerca de 85% da matriz de transportes depende das estradas, a Federação também acompanha temas como a reforma tributária, a falta de motoristas qualificados e as mudanças regulatórias que devem impactar o segmento nos próximos anos. 

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Cardoso faz um balanço dos 35 anos da Fetransul, defende investimentos em infraestrutura como prioridade para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul e analisa os desafios que devem moldar o futuro do transporte de cargas e da logística no País.

JC Logística – A Fetransul completa 35 anos de atuação em um momento de transformações no transporte e na logística. Que balanço o senhor faz dessa trajetória?

Francisco Carlos Gonçalves Cardoso – Há 35 anos, quando a Fetransul foi fundada, eram apenas cinco sindicatos filiados com o propósito de participar da Confederação Nacional de Transportes para, assim, poder ter direito a voz e voto nas reuniões que decidem a representação do segmento em nível nacional. Ao longo desses anos, novos sindicatos foram se somando. Hoje nós somos uma dúzia, distribuídos estrategicamente nas principais cidades do Estado. Então, hoje o propósito maior já não é mais ter direito a voz e voto. Mas poder participar das decisões e pautar temas que são de interesse dos transportadores, das empresas e dos empresários gaúchos, não só em nível estadual como também em nível federal. Muitas dessas decisões passam pelo Congresso, seja na Câmara ou no Senado, e também pelo Executivo e pelo Judiciário. Por isso, afirmo que a Fetransul não só cresceu ao longo desses 35 anos, mas também amadureceu muito. Estamos preparados hoje para esse papel institucional e político que compete à Federação.

Log – O rodoviário responde por cerca de 85% da matriz de transportes do Estado. O que isso representa para a economia gaúcha?

Cardoso – Em nível logístico, é sempre importante para a economia do Rio Grande do Sul ter uma diversidade de modais, seja hidroviário, ferroviário, aéreo ou rodoviário. No entanto, a nossa economia é predominantemente agropecuária e a nossa base industrial é muito forte, e esses negócios dependem muito do rodoviário. Além disso, a nossa infraestrutura hidroviária e ferroviária não está preparada para atender às demandas da sociedade. Já o rodoviário se preparou para isso ao longo do tempo. As nossas empresas conseguem fazer o transporte no menor tempo, por um custo competitivo e sempre com disponibilidade. E isso é o que torna o rodoviário tão importante. 

Log – Se ampliarmos a participação dos modais ferroviário e hidroviário, seria na intenção de complementar o rodoviário ou viria a ser um concorrente?

Cardoso – Eu não diria que os modais sejam complementares ou concorrentes. Cada um tem sua função dentro da logística. O transporte ferroviário é mais adequado para commodities e cargas a granel, mas não está presente em todas as regiões, como ocorre com o transporte rodoviário. Para levar a produção de uma fazenda até um porto, por exemplo, o trem, sozinho, não é suficiente. O caminhão consegue acessar a propriedade e transportar a carga com mais facilidade e agilidade. Além disso, a implantação da infraestrutura ferroviária exige projeto e investimento. O transporte rodoviário, por outro lado, oferece maior flexibilidade, estando presente em praticamente toda a cadeia logística e servindo de apoio aos demais modais, inclusive ao transporte aéreo. 

Log – Na sua avaliação, quais são os investimentos em infraestrutura aqui no Rio Grande do Sul mais urgentes para aumentar a competitividade do Estado?

Cardoso – São muitas as demandas, mas, entre as prioridades em âmbito federal, destaco a BR-290. Trata-se do único trecho do corredor do Mercosul, que liga São Paulo a Buenos Aires, ainda sem duplicação. É uma rodovia com intenso fluxo de veículos e pessoas, que atravessa diversos municípios. Essa situação torna o deslocamento mais lento, aumenta o consumo de combustível, eleva os custos do transporte, amplia os impactos ambientais e também os riscos de acidentes. É uma obra que precisa, com urgência, receber investimentos. Outra prioridade é a duplicação da BR-285, entre Vacaria e São Borja, um importante corredor logístico com grande circulação de veículos. Também considero fundamental a duplicação do trecho entre Lages (SC) e Vacaria (RS), que se consolidaria como uma alternativa estratégica para a ligação entre o Sudeste e a região central do Rio Grande do Sul, reduzindo a dependência da BR-101, no litoral.

Log – O Brasil ainda enfrenta elevados custos logísticos. Quais são os principais gargalos que impedem um transporte mais eficiente e competitivo?

Cardoso – O principal custo do transporte rodoviário é o tempo, seguido pelas despesas com manutenção e pelos custos operacionais. Segundo pesquisa da CNT, em 2025, cerca de 90% das rodovias do Rio Grande do Sul foram classificadas como regulares, ruins ou péssimas. Apenas 10% receberam avaliação de ótima ou boa. Essa condição eleva, em média, 37% os custos operacionais do transporte. Quando circulamos por rodovias sem duplicação, com pavimento precário, congestionamentos frequentes ou interrupções causadas por acidentes, a velocidade média cai para menos de 60 km/h, o que aumenta o tempo de viagem. Isso reduz a produtividade, amplia o consumo de diesel e encarece toda a operação logística. Poderíamos ser muito mais produtivos se tivéssemos uma infraestrutura semelhante à de países europeus e à dos Estados Unidos e da China. Embora o transporte rodoviário seja predominante no Brasil, nossa malha viária não acompanhou o crescimento da demanda. As estradas que utilizamos hoje são, em muitos casos, as mesmas de seis décadas atrás. Precisamos ampliar e modernizar essa infraestrutura para tornar o Rio Grande do Sul e o Brasil mais competitivos.

Log – Em relação à falta de motoristas qualificados. Como a Fetransul enxerga esse desafio e quais caminhos considera importantes para atrair novos profissionais?

Cardoso – Esse é um desafio não só do Rio Grande do Sul. Faltam motoristas de caminhão no mundo inteiro, e a forma de conduzir um caminhão mudou muito ao longo dos anos. No passado, era permitido viajar com a esposa e com o filho, o que fazia com que esse jovem visse na profissão um futuro. Hoje, devido às condições de gerenciamento de risco, as seguradoras não permitem mais que motoristas viajem acompanhados. Além disso, os caminhões melhoraram muito nos últimos anos. Hoje, eles emitem menos poluentes, possuem um conforto muito melhor, oferecem mais segurança para a carga, para o motorista e para aqueles que estão transitando nas rodovias. No entanto, os pontos de paradas não avançaram na mesma velocidade e qualidade que eles. Por isso, é preciso mais investimentos nesses pontos, o que também traria mais segurança e maior atratividade para o segmento de transporte. Nesse sentido, o SEST SENAT (Serviço Social do Transporte e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) realiza trabalhos de formação de motoristas, com habilitação gratuita para aqueles que desejam se formar. Já a Fetransul realiza, por meio do programa “Motorista do Futuro”, eventos nas unidades do SEST SENAT para convidar jovens a conhecer um caminhão e toda a tecnologia dele, assistir a palestras e, assim, se sentir atraído pelo setor. 

Log – Pensando no futuro, daqui a 15 anos, como você enxerga transformações para o transporte de cargas e para a logística do Brasil? E qual o papel e as metas da Fetransul para esse futuro? 

Cardoso – Hoje as transformações do setor já são muito explícitas. Com isso, estamos tendo que lidar com diversos desafios. Por exemplo, nós não conseguimos mais emitir um conhecimento, com um piso mínimo de fretes e novos seguros, sem o Cadastro de Identificação de Operação de Transporte, que passou a ser exigido. Isso aumenta o custo e exige uma transição por parte das empresas. Também estamos acompanhando a implementação da reforma tributária, com a criação da CBS e do IBS, e as discussões sobre a redução da jornada de trabalho, que pode impactar a produtividade do setor. Paralelamente, seguimos atentos aos projetos de concessão rodoviária, estaduais e federais, por entendermos que a infraestrutura continuará sendo um dos principais fatores para a competitividade do transporte de cargas e da logística no Brasil. 

Fonte: Jornal do Comércio – Foto: TÂNIA MEINERZ/JC

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