Estação do Desenvolvimento encerra primeiro dia com debates sobre transição energética, sustentabilidade e inclusão

Painéis debatem a logística como vetor de integração regional, a importância das concessões sustentáveis e os desafios da transição justa no setor de transporte

A Estação do Desenvolvimento, espaço do Sistema Transporte (CNT, SEST SENAT e ITL) na COP30, encerrou seu primeiro dia de atividades com uma série de painéis que reforçaram o protagonismo do setor na agenda climática global. As discussões abordaram o papel do transporte na transição energética, a importância das concessões sustentáveis e os caminhos para garantir que essa transformação ocorra de forma justa e inclusiva.

Ao longo do dia, representantes do governo, da iniciativa privada e de organismos internacionais se reuniram para debater como o transporte pode contribuir de maneira decisiva para o desenvolvimento sustentável da Amazônia e do Brasil. Entre os participantes, prevaleceu um consenso: a urgência de equilibrar eficiência logística, inclusão social e responsabilidade ambiental – um compromisso reafirmado pelo presidente do Sistema Transporte, Vander Costa.

No painel “OIT Brasil apresenta: desafios da transição justa no Brasil”, mediado pelo oficial nacional da OIT, Raoní Vale, o presidente Vander Costa destacou que a COP30 deve ser um marco na transformação da matriz de transporte brasileira, impulsionando soluções sustentáveis e práticas integradas. Ele ressaltou que a transição energética só será efetiva se considerar todo o ciclo de geração e consumo de energia, e não apenas a substituição de tecnologias.

“A transição energética não pode ser focada unicamente em um ponto. É preciso olhar para toda a cadeia, da produção ao consumo, para alcançar uma emissão neutra de carbono”, afirmou. O presidente lembrou que a discussão sobre sustentabilidade, antes centrada no futuro, já se tornou uma questão imediata. “Costumávamos dizer que precisávamos proteger o planeta para nossos filhos. Hoje, precisamos protegê-lo para nós mesmos”, completou.

Vander Costa observou que a tecnologia para veículos elétricos já é uma realidade no país, especialmente para curtas distâncias, mas alertou que o impacto positivo depende da origem da energia utilizada. “De nada adianta eletrificar a frota se a energia que carrega essas baterias não for limpa”, ressaltou. Ele também defendeu o fortalecimento da produção nacional de biocombustíveis sustentáveis, como o etanol e o biogás, e o uso de áreas degradadas para o cultivo de biomassa, “sem derrubar uma árvore a mais”. Segundo ele, essa estratégia pode unir recuperação ambiental, produção agrícola e captura de carbono.

O presidente reforçou ainda que uma transição justa deve colocar as pessoas no centro do processo, com foco na qualificação profissional. “Com o aumento da frota elétrica, é fundamental requalificar os profissionais da manutenção automotiva. Mecânicos que conheciam o motor a combustão precisam estar preparados para trabalhar com veículos elétricos”, destacou. Vander lembrou que o SEST SENAT já está promovendo cursos voltados à mobilidade elétrica, à manutenção digital e ao desenvolvimento de software, acompanhando as mudanças tecnológicas do setor.

O debate contou também com a presença do diretor do Escritório da OIT no Brasil, Vinicius Pinheiro, que ressaltou a necessidade de manter as pessoas no centro das políticas climáticas. Segundo ele, a COP30 marca um novo momento na agenda global, em que as discussões sobre o clima deixam de ser apenas ambientais e passam a integrar dimensões sociais e econômicas. “A transição justa significa gerar empregos decentes e não deixar ninguém para trás. Essa é a marca da COP brasileira”, afirmou.

A enviada especial da presidência da COP30 para os direitos humanos e a transição justa, Denise Dora, destacou que a adaptação às novas formas de produção e energia também exige garantias legais e proteção social. “A transição não pode ser apenas tecnológica, ela precisa ser ética. Não é porque uma energia é limpa que ela é automaticamente justa. É preciso garantir que ninguém perca direitos no processo de mudança”, disse. Denise alertou ainda que, sem diálogo e planejamento, as novas cadeias produtivas correm o risco de reproduzir desigualdades históricas.

Também participou o presidente da Força Sindical, Miguel Torres, que defendeu a presença ativa dos trabalhadores nos espaços de decisão sobre a transição energética. “A transição justa precisa garantir trabalho decente e sustentável, especialmente na Amazônia, onde a informalidade ainda é alta”, afirmou.

Soluções logísticas para o desenvolvimento regional

O painel “Soluções logísticas para o desenvolvimento regional”, mediado pela gerente executiva Governamental da CNT, Danielle Bernardes, destacou a integração entre modais e os investimentos em infraestrutura resiliente como pilares do desenvolvimento nacional. “Discutir a logística na Amazônia e no Brasil é fundamental. A eficiência logística é um pilar para o desenvolvimento regional, capaz de integrar territórios, reduzir desigualdades e fortalecer a competitividade do nosso país”, afirmou.

O diretor-secretário do Sindarpa, Edivaldo Maués Carvalho Neto, reforçou que a navegação fluvial é vital para a Amazônia, onde muitos municípios só são acessíveis por rios. “A navegação fluvial aqui é uma necessidade. Existem cidades que só são acessadas pelos rios, transportando alimentos, combustível, materiais escolares e produtos básicos. Além do papel logístico, a navegação tem uma função social enorme, garantindo o abastecimento e a sobrevivência de inúmeras comunidades ribeirinhas”, afirmou.

O vice-presidente da Fetramaz, Daniel Bertollini, destacou que a multimodalidade já faz parte da rotina logística na Amazônia, mas o avanço depende de investimentos estruturais e políticas de longo prazo. “A Amazônia tem rios navegáveis, mas ainda carece de infraestrutura resiliente. Precisamos de dragagem permanente, de licenças ambientais que permitam avançar e de projetos estratégicos, como a Ferrogrão, que simplesmente não saem do papel”, afirmou. Ele lembrou que as limitações de navegabilidade em rios como o Amazonas, o Madeira e o Tapajós reduzem a competitividade da região. “As hidrovias são um eixo de desenvolvimento sustentável, mas precisamos de mais investimentos e planejamento para garantir operação durante todo o ano e reduzir nossa dependência do transporte rodoviário”, completou.

O diretor de crédito do Banco da Amazônia, Roberto Schwarts, apresentou números que reforçam a importância do financiamento de longo prazo. “Nos últimos cinco anos, contratamos cerca de R$ 5 bilhões em crédito para logística e transportes, e nossa programação é chegar a R$ 8 bilhões nos próximos quatro anos”, afirmou. Segundo ele, investir em multimodalidade gera benefícios ambientais e econômicos, transformando as localidades em polos de crescimento.

Integração climática e regulação sustentável

Encerrando o primeiro dia de atividades, o painel “Concessões sustentáveis de transporte: caminhos para a integração climática na regulação” reuniu especialistas do poder público e da iniciativa privada para discutir a incorporação de critérios ambientais e sociais nas concessões de infraestrutura.

Participaram do debate Felipe Queiroz, diretor da ANTT; Tito Queiroz, secretário-executivo adjunto do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional; e Miguel Setas, CEO da Motiva, com moderação de Tiago Casagrande, engenheiro ambiental sênior do Ministério dos Transportes.

O diretor de Relações Institucionais da CNT, Valter Souza, ressaltou que a COP30 deve marcar o início de uma transformação profunda na matriz de transporte brasileira, com a ampliação de modais mais limpos e eficientes. “A COP30 é o marco da transformação. Não podemos continuar com esse modelo de domínio de modalidades que gastam mais e são mais caras. Precisamos redistribuir o uso dos modais, fortalecer o transporte ferroviário, hidroviário e a multimodalidade, garantindo sustentabilidade e competitividade”, afirmou.

Valter Souza também reforçou a importância da segurança jurídica nos contratos de concessão para garantir previsibilidade aos investidores e destacou que a descarbonização depende de planejamento e modernização da frota. “A substituição gradativa da frota de caminhões e ônibus por modelos mais limpos precisa começar agora. A COP30 deve ser o ponto inicial dessa mudança, e não um evento isolado”, afirmou. Ele concluiu que essa transformação precisa ser irreversível e articulada entre governo, agências reguladoras, concessionárias e entidades do setor de transporte.

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Por Agência CNT Transporte Atual

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