Entre estradas em condições inadequadas e uma forte dependência do transporte rodoviário, a logística gaúcha ainda enfrenta obstáculos que pesam sobre a economia. O problema aparece no tempo perdido, no aumento do combustível, na manutenção dos veículos e, ao final do processo, no preço que chega para empresas e consumidores.
Esses e outros gargalos logísticos foram temas discutidos no Painel Diálogos, promovido pela Fetransul, em Porto Alegre. Entre os participantes estava Fernanda Schwantes, gerente executiva de economia da Confederação Nacional do Transporte (CNT), que chamou atenção para a falta de investimentos e para a dependência das rodovias.
Em entrevista ao Jornal do Comércio, ela analisa os principais entraves da logística gaúcha, os impactos sobre a competitividade e o que precisa avançar para que o Estado tenha uma infraestrutura capaz de acompanhar suas necessidades.
JC Logística – Como a CNT avalia hoje a infraestrutura brasileira para o transporte de cargas?
Fernanda Schwantes– A infraestrutura em todas as modalidades de transporte, seja rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e terminais, está faltando investimento. Nós estimamos que é necessário implementar 2.800 projetos para o Brasil alcançar um nível de infraestrutura ideal e comparável com outros países que competem com o País no mercado internacional. E esses projetos demandariam R$ 2 trilhões em investimentos. Aqui no Rio Grande do Sul, são 256 projetos identificados como prioritários, os quais demandariam R$ 125 bilhões em investimento em todos os modos de transporte de cargas.
Log – O Brasil avançou ou perdeu no quesito de competitividade logística nos últimos anos?
Fernanda – Certamente perdeu por falta de investimento, porque o volume de recursos que a União consegue investir no modo rodoviário, que é por onde a gente movimenta 65% das cargas e mais de 95% da mobilidade de passageiros, é feita por rodovias, saímos de um volume de investimentos em infraestrutura em torno de 2% do PIB, na década de 70, para 0,13% do PIB em 2025. Isso em valores são R$ 17 bilhões de reais por ano, que é muito inferior ao que o Brasil precisaria investir em rodovias. Estimamos que só para a manutenção das rodovias que já existem, o Brasil precisaria investir R$ 50 bilhões por ano. A qualidade da infraestrutura compromete a competitividade das empresas e do País.
Log – Quais gargalos logísticos do Rio Grande do Sul chamam mais atenção hoje?
Fernanda – São diversos problemas de logística. O primeiro é a nossa matriz de transporte que é bastante concentrada no modo rodoviário. É a modalidade que recebe maior volume de investimentos. Não estamos falando em reduzir carga do modo rodoviário, mas sim em usar cada modalidade para o que é melhor, por exemplo, longas distâncias com produto de baixo valor agregado, como é o caso de grãos ou minérios, é melhor fazer por ferrovia e deixar os caminhões para distâncias mais curtas. Ainda temos baixa densidade de malha. Só 12% da malha rodoviária no Brasil é pavimentada. Vimos casos em que até o exército acabou fazendo. E por último é a qualidade da infraestrutura. Rodovias que não estão em bom estado de conservação aumentam muito o custo operacional do transportador e no fim vira inflação para todos os produtos.
Log – Qual é o impacto da condição das rodovias sobre o custo operacional e consequentemente sobre a competitividade das empresas?
Fernanda – Estimamos que o custo operacional de caminhões e ônibus que andam por rodovias de baixa qualidade aumenta em média 30% em relação a um pavimento de boa qualidade. Aqui no Rio Grande do Sul isso é ainda mais crítico, porque é quase um aumento de 40% no custo operacional do transportador em função da má qualidade das rodovias, as rodovias sob concessão também estão classificadas em estado geral de conservação regular, ruim ou péssimo. Ou seja, o transportador já paga impostos para ter infraestrutura, mas ainda sim paga pedágio. Vemos que há muito caminho para a melhoria dos contratos de concessão e também que as concessionárias precisam ser melhor fiscalizadas sobre os investimentos que elas têm efetivamente feito.
Log – O que as enchentes de 2024 revelaram sobre a vulnerabilidade da infraestrutura gaúcha?
Fernanda – Revelou que não só o Rio Grande do Sul, mas o Brasil inteiro não tem uma infraestrutura resiliente às mudanças climáticas. Praticamente todas as rodovias construídas no país foram construídas na década de 70, com padrões de construção compatíveis com a realidade que se tinha naquela época. Acredito também que o Estado não está preparado para outro evento climático porque tudo foi reconstruído com o mesmo padrão de infraestrutura da que foi perdida em função dos eventos climáticos extremos. Temos muitos estudos e conhecimento, mas acaba que custa muito mais cara de ser implementada, e dada a urgência, ela acabou sendo reconstruída com o mesmo padrão construtivo anterior.
Log – Como a infraestrutura influencia a decisão de novos investimentos privados no Rio Grande do Sul?
Fernanda – Quando uma empresa decide se instalar em uma determinada localidade, ela vai considerar quais são as condições para receber matéria prima e escoar a produção dela. Quanto mais precária for a infraestrutura numa determinada região, mais difícil fica para uma empresa se instalar naquele local. Vimos isso acontecer muito no Estado e em algumas outras regiões do País à medida que a infraestrutura foi piorando. O custo logístico acaba ficando muito mais alto em função dessa dificuldade de escoar a safra e a produção industrial por causa da baixa qualidade da infraestrutura.
Log – Por fim, quais obras estruturantes ou investimentos deveriam ser prioridades nos próximos anos para melhorar a logística gaúcha?
Fernanda – São diversas melhorias que precisam ser feitas nas rodovias para melhorar o fluxo e a segurança para os usuários também. Vimos que no Rio Grande do Sul são necessários 256 projetos que precisam ser implementados para melhorar a infraestrutura do Estado, e esses projetos, entre eles a duplicação de rodovias, construção de faixa adicional em subidas, melhoria da sinalização e melhoria da qualidade do pavimento, demandariam R$ 125 bilhões de investimento.
Fonte: JC – Sofia Kramp Leke



