Francisco Cardoso comenta no Bom Dia Rio Grande os reflexos da guerra no Irã para o diesel e a economia do RS

Assista à matéria completa aqui.


Confira abaixo a reportagem publicada na GZH, assinada pelo jornalista Mathias Boni:

Desde o último dia 28, quando ocorreram os primeiros ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, os efeitos dos confrontos na cadeia global de suprimentos têm crescido diariamente. Entre as principais consequências econômicas da guerra no Oriente Médio está o aumento do preço do barril de petróleo, que disparou nas últimas semanas e já impacta o comércio de combustíveis pelo planeta.

Além de o Irã ser um dos maiores produtores da commodity no mundo, o país também detém o controle do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% de todo o petróleo consumido mundialmente. Ainda, em razão da guerra e dos ataques militares, outros países produtores de petróleo da região, como Kuwait e Emirados Árabes Unidos, diminuíram suas produções nos últimos dias, reforçando a tendência de subida no preço do barril — após atingir pico de US$ 120, o valor tem orbitado ao redor de US$ 90 nos últimos dias.

No Rio Grande do Sul, esse desequilíbrio já é sentido na prática. Diferentes setores, como o de transportes e o agronegócio, afirmam encontrar dificuldades para abastecimento, principalmente de diesel.

Confira, nesta reportagem, os impactos sentidos em cada segmento e no dia a dia, além das expectativas sobre o abastecimento e pelos próximos passos da Petrobras no mercado.

Impactos por setor

Transporte público

Transporte público foi afetado pela falta de combustível em Rio Grande.Prefeitura de Rio Grande / Divulgação

Na manhã desta quarta-feira (11), a Transpessoal, empresa responsável pelo transporte coletivo no município de Rio Grande, anunciou redução na tabela de horários, alegando “não ter disponibilidade imediata do combustível (diesel) e, quando há oferta, os preços repassados estão até 25% acima dos valores praticados há cerca de duas semanas”.

Consultadas pela reportagem, tanto a Associação Riograndense de Transporte Intermunicipal (RTI) quanto a Associação dos Transportadores de Passageiros de Porto Alegre (ATPPOA) informam que monitoram a situação da distribuição de combustíveis no Estado, mas que, por enquanto, não planejam redução dos serviços.

Agronegócio

Produtores rurais relataram falta de combustível.Jeferson Kickhöfel / RBS TV

Já no início desta semana, produtores rurais passaram a comunicar que estavam enfrentando desafios para o abastecimento, relatando inclusive falta de diesel. A situação é ainda mais sensível no campo em razão do período atual, que é de colheita de alguns dos grãos mais importantes para a economia do Estado.

— Desde os primeiros dias da guerra, já começamos a ouvir de produtores que estavam com dificuldades para receber diesel, e que em alguns lugares o preço já estava mais caro. Encaramos esse cenário com muita preocupação, ainda mais por estarmos no período de colheita do arroz e nos aproximando do da soja. Já tivemos muitas perdas no campo nos últimos anos e não podemos ter mais essa dificuldade agora — destaca Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).

Transportadoras projetam repasse de parte dos custos ao consumidor. Neimar De Cesero / Agencia RBS

O setor do transporte de cargas também tem relatado problemas com a oferta de diesel no Estado. Apesar de não relatarem casos de falta do combustível, os motoristas do segmento já encontram preços muito acima dos encontrados antes do conflito no Oriente Médio.

— Apesar de já ouvir relatos de falta de diesel em alguns pontos do Brasil, mais no Nordeste, ainda não encontramos essa situação aqui no Rio Grande do Sul. O que já estamos vendo, sim, é um aumento no valor do litro vendido, de até mais de um real. O diesel representa cerca de 45% de nossos custos variáveis e, com o encarecimento do combustível, nesse nível, fica impossível não repassar pelo menos uma parte deste aumento ao consumidor — aponta Francisco Cardoso, presidente da Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul).

Risco de desabastecimento descartado

O Sulpetro, sindicato que representa os postos de combustíveis, afirma que o cenário no Rio Grande do Sul não é de risco de desabastecimento, mas de “restrição”. O presidente da entidade, João Carlos Dal’Aqua, reconhece que a demanda pelo combustível se aqueceu nos últimos dias, mas ressalta que os relatos sobre falta de diesel são pontuais.

— O que vemos que tem acontecido é que muitas TRRs, empresas que abastecem lavouras com diesel, não tinham contrato regular de abastecimento com distribuidoras e agora, como o combustível está mais caro no mercado e a demanda aumentou, essas empresas ou não estão comprando, ou estão comprando e oferecendo muito mais caro a seus clientes. A demanda aumentou, o preço aumentou, mas falta do produto, não estamos sabendo — diz o presidente do Sulpetro.

A Petrobras informou no domingo (8) que não houve alterações na venda do combustível por parte de suas refinarias nos últimos dias e que as entregas no Rio Grande do Sul estão ocorrendo “dentro do volume programado”.

No aguardo da Petrobras

Petrobras afirma que não antecipa decisões sobre manutenção ou reajustes de preços. Michel Chedid / Agência Petrobras

A disparada do valor do barril de petróleo criou uma defasagem entre os preços do mercado internacional e o praticado pela Petrobras no mercado brasileiro, já que a empresa não segue mais a política de paridade internacional de preços e, desde o início da guerra, ainda não reajustou o valor de venda do seu combustível. Com a disparidade, os importadores pararam de comprar o combustível, o que pode causar ainda mais desequilíbrio no mercado brasileiro, pois cerca de 30% do diesel consumido no país é importado.

Por isso, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) tem conclamado a Petrobras a anunciar um reajuste no valor de venda do diesel. A estatal, entretanto, até agora tem manifestado cautela para lidar com o cenário atual.

Em nota enviada à reportagem nesta semana, a Petrobras destacou que “por questões concorrenciais, não antecipa decisões sobre manutenção ou reajustes de preços”. Em complemento, a empresa afirmou que sua estratégia visa reduzir “a transmissão imediata das variações internacionais para o mercado brasileiro, garantindo maior previsibilidade e segurança, protegendo nossos clientes de oscilações abruptas que se originam fora do país”.

Mesmo assim, as entidades gaúchas ainda aguardam posicionamento da estatal brasileira para dar mais segurança ao setor.

— O mercado inteiro está aguardando a Petrobras, para saber se a empresa vai aumentar a importação por conta própria e reforçar os estoques nacionais ou se vai anunciar um reajuste no seu valor de venda, o que voltaria a incentivar a importação de combustível — destaca João Carlos Dal’Aqua.

O presidente da Fetransul, Francisco Cardoso, reforça o sentimento de expectativa em torno de um novo posicionamento anunciado pela estatal.

— A Petrobras, e mesmo o governo federal, de forma geral, precisam ser transparentes e expressar uma posição mais clara. Estão encarando como uma questão temporária, que logo será superada? Vão tomar medidas mais concretas para afastar os rumores de um possível desabastecimento? O que não dá é deixar o mercado desorientado, como está acontecendo — acrescenta.

Fonte: GZH / Mateus Boni – Foto: Arquivo / RBS TV

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