Projeto da CMPC em Barra do Ribeiro mobiliza empresários e políticos gaúchos

O projeto bilionário da CMPC no Rio Grande do Sul deixou de ser apenas um processo técnico de licenciamento ambiental para se transformar em um dos principais pontos de tensão política e econômica do Estado em 2026. Em meio ao impasse, o tema passou a mobilizar empresários, governo, órgãos de controle e até pré-candidatos ao Palácio Piratini – todos preocupados com o futuro de um investimento estimado em R$ 27 bilhões.

controvérsia gira em torno do chamado Projeto Natureza, cuja licença é conduzida pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e questionada pelo Ministério Público Federal (MPF). O órgão recomendou no início de março a suspensão do processo até que sejam ampliadas as consultas a comunidades indígenas potencialmente afetadas, ponto que, desde então, passou a travar o andamento da análise.

No entanto, enquanto o debate técnico avança lentamente, a reação fora dos gabinetes ganhou velocidade. O empresariado gaúcho, em especial, decidiu entrar de vez no tema: mais de 40 entidades já assinaram o manifesto “O RS merece crescer”, defendendo o avanço do projeto. Além disso, um grupo ainda maior – reunindo 65 organizações no movimento Porto Alegre+ – divulgou um manifesto na semana passada elevando o tom ao falar em “profunda preocupação” com o risco de interrupção do licenciamento.

A avaliação, compartilhada por diferentes setores, é de que o impasse extrapola o caso específico da CMPC e passa a afetar a percepção do Estado como destino de investimentos. “Eventuais atrasos afastam investidores e impedem a geração de empregos e renda”, diz o manifesto.

Representando o movimento, o presidente do Sinduscon-RS, Claudio Teitelbaum, resume o receio: “Quando um processo desse nível é questionado nessa fase, aumenta o receio do investidor”. Segundo ele, o grupo não busca pressionar decisões, mas cobrar previsibilidade. “O que pedimos é celeridade, para que a empresa tenha clareza sobre os riscos.”

A mobilização ganhou musculatura também em outras frentes. A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) aderiu ao abaixo-assinado e passou a tratar o empreendimento como um dos mais relevantes em curso no Estado. Já a Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul) destacou, em manifestação, o impacto direto sobre cadeias produtivas, apontando efeitos na movimentação de cargas, na criação de rotas logísticas e na competitividade do Rio Grande do Sul.

No discurso empresarial, dois conceitos se repetem: segurança jurídica e previsibilidade. “Projetos dessa magnitude representam dinamização econômica em diversas regiões”, afirma a federação do transporte, ao mesmo tempo em que ressalta a necessidade de respeito aos marcos ambientais.

Do outro lado, o Ministério Público Federal sustenta que as exigências são parte do rito normal de grandes empreendimentos. O procurador-chefe no Estado, Felipe Muller, classificou na última semana, durante o Tá na Mesa, da Federasul, como “corriqueira” a necessidade de ampliar a consulta a comunidades indígenas.

“Para todas as empresas de grande impacto, que de alguma forma vão atingir alguma comunidade indígena, a gente faz esse tipo de exigência”, afirmou. Segundo ele, ainda, o MPF realizou ao menos 16 reuniões com a empresa ao longo do processo e segue aberto ao diálogo – “o que não significa atender aos pedidos”.

ponto central do impasse está justamente na metodologia dessas consultas. Ao menos oito aldeias do povo Mbyá Guarani estão na área de influência direta do empreendimento, e o MPF defende que estudos técnicos não substituem a consulta formal prevista na Convenção 169 da OIT.

Entre esses dois polos – o econômico e o jurídico – o governo do Estado tenta equilibrar o discurso. Após reunião com a Funai, em Brasília, também na semana passada, a secretária estadual do Meio Ambiente, Marjorie Kauffmann, afirmou ao Jornal do Comércio que o Executivo saiu “confiante” e que o processo segue baseado em critérios técnicos. “O desenvolvimento e a sustentabilidade não são opostos, precisam avançar juntos”, disse.

Fonte: Jornal do Comércio – Foto: CMPC/Divulgação/JC

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