A novela do biodiesel: entre a bomba e a gôndola

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) apertou o freio de mão e manteve a mistura de biodiesel no diesel em 14%, adiando o aumento para 15% que entraria em vigor em março. O motivo? Conter a alta dos preços dos alimentos. Segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o objetivo é aliviar o bolso do consumidor no supermercado, já que boa parte do biodiesel vem da soja, matéria-prima que pesa na inflação.

A matemática é simples: quanto mais biodiesel, maior o custo do diesel na bomba. O combustível renovável é menos poluente, mas também mais caro que seu primo fóssil. E essa conta vai continuar subindo: a lei 14.993/2024 prevê um aumento anual de 1% na mistura até chegar a 20% em 2030. Mas o CNPE tem a prerrogativa de decidir o percentual dentro da faixa de 13% a 25%, o que significa que essa escalada pode ser reavaliada a qualquer momento.

Diesel Verde: a nova estrela da descarbonização?

Enquanto o biodiesel enfrenta seus dilemas, o diesel verde — também chamado de HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado) — ganha espaço na conversa. O CNPE deverá definir anualmente a participação mínima obrigatória desse combustível na matriz brasileira, levando em conta fatores como oferta, impacto no preço final e competitividade no mercado internacional.

Mas calma, diesel verde e biodiesel não são a mesma coisa. O biodiesel é um éster de ácidos graxos, feito a partir da reação de óleos ou gorduras com um álcool. Já o diesel verde, apesar de também vir de óleos vegetais e animais, é um hidrocarboneto parafínico obtido por hidrotratamento, podendo ser usado diretamente em motores diesel sem adaptações.

A Petrobras já entendeu o recado e anunciou que vai transformar a Refinaria Riograndense em uma biorrefinaria, produzindo diesel verde e SAF (Sustainable Aviation Fuel, o combustível sustentável de aviação). A decisão reforça o potencial do Rio Grande do Sul nessa corrida pela descarbonização — um mercado que não para de crescer.

E o futuro do transporte?

A discussão não se resume apenas a misturas e porcentagens. O aumento gradual do biodiesel pode trazer desafios mecânicos, tanto nos motores quanto nas bombas de abastecimento. Antes de seguir aumentando a mistura de forma automática, seria prudente realizar novos testes para garantir que a evolução é realmente sustentável.

Além disso, outras soluções já estão na pista. Caminhões movidos a biometano e GNV ganham espaço, enquanto a eletrificação avança nas curtas distâncias. E tem mais novidade por vir: a partir de 2026, o Brasil começará a adicionar 1% de biometano ao GNV, com aumento progressivo até atingir 10%.

O futuro do transporte sustentável não tem uma única estrada. O biodiesel, o diesel verde, o biometano e os veículos elétricos fazem parte desse ecossistema. A questão não é apenas qual será o combustível dominante, mas sim como todas essas opções podem coexistir para garantir eficiência, competitividade e, claro, um planeta mais limpo.

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