Debate na Estação do Desenvolvimento aponta que empresas precisam unir descarbonização, combate a violações e inovação responsável
Belém (PA) – Na COP30, realizada em Belém, a Estação do Desenvolvimento recebeu, no dia 19, o painel “Responsabilidade empresarial além do clima”, organizado pelo Instituto Ethos. O encontro reuniu organizações da área social, corporativa e acadêmica e evidenciou que a pauta climática vai muito além da redução de emissões. O debate reforçou que as empresas precisam assumir compromissos sociais e ambientais mais amplos, integrando direitos humanos, integridade e sustentabilidade para alcançar resultados efetivos.
A moderadora Marcela Greco, gestora de projetos do Instituto Ethos, abriu o debate enfatizando que “não adianta desenvolver uma agenda climática para uma transição verde sem preocupação com os territórios impactados, com os direitos das pessoas e com toda a cadeia das empresas”. Para ela, o papel das companhias também passa por governança responsável e compromisso com as comunidades.
Representando o setor de transporte no painel, Jean Michel, gerente executivo de Promoção Social do SEST SENAT, reforçou que uma transição justa precisa ser centrada em pessoas e que a justiça social é condição essencial para um futuro sustentável. Em sua fala, apresentou iniciativas que mostram como o Sistema Transporte pode contribuir para a responsabilidade social e a inclusão. Entre os exemplos, citou o Projeto Proteção, desenvolvido em parceria com a Polícia Rodoviária Federal e a ONG sueca Childhood, voltado ao combate à exploração sexual de crianças e adolescentes em pontos de risco nas rodovias brasileiras. “Hoje temos mapeados 19 mil pontos de alto risco. O setor de transporte, pela sua capilaridade, consegue levar essa mensagem a quase 5 mil municípios”, ressaltou.
Jean também mencionou o Projeto Impulsiona, realizado em cooperação com o Conselho Nacional de Justiça, que acolhe jovens em situação de vulnerabilidade e os integra em programas de saúde e capacitação profissional. “Já temos jovens empregados em cursos de mecânica, suprindo a carência de mão de obra no setor. Nosso programa impulsiona esses aprendizes, e o curso de mecânica já está disponível em Brasília”, disse. Outro exemplo citado foi a Rota de Acessibilidade, iniciativa voltada à capacitação em atendimento inclusivo e acessível. “Já formamos 400 pessoas em Libras e ampliamos cursos para atendimento humanizado a pessoas com autismo. No total, foram 12 mil atendimentos a pessoas com TEA”, explicou. Ao concluir, Jean reforçou que “a responsabilidade empresarial vai além da redução de emissões e precisa estar conectada a direitos humanos, inclusão e governança. Não basta apoiar causas, é preciso colocar a mão na massa”.
A diretora executiva do Instituto Impacto, Marina Ferro, lembrou que regiões com alto índice de desmatamento ilegal também concentram maior ocorrência de trabalho escravo no Brasil. Ela destacou que os princípios da ONU de 2011 consolidaram o dever das empresas de respeitar e reparar direitos humanos. “Mais de 80% das pessoas resgatadas de trabalho análogo à escravidão se autodeclaram negras, o que evidencia uma violação sistemática e a necessidade de políticas empresariais que enfrentem desigualdades históricas”, afirmou.
Na mesma linha de reflexão sobre os impactos sociais da transição, Marina Esteves, pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGVCES), reforçou que “a gente não pode garantir que mude uma matriz energética deixando o território e as pessoas de fora desse processo”. Para ela, diagnósticos sólidos são fundamentais para orientar políticas, e iniciativas como o cálculo da pegada de carbono de carros populares e o apoio ao Plano Clima apontam caminhos possíveis. “Não existe solução única. Eletrificação é importante, mas precisa ser combinada com biocombustíveis e estratégias locais”, afirmou.
A pesquisadora também abordou o apoio ao Governo Federal na construção do Plano Clima, que, pela primeira vez, estabelecerá limites de emissão específicos para setores como transporte e agropecuária. “Esse projeto é inédito e tem sido muito interessante, porque envolve consultas com setores econômicos, movimentos sociais e organizações da sociedade civil para garantir que o plano seja representativo e que o Brasil alcance suas metas de descarbonização até 2030 e emissões zero até 2050”, disse.
Na parte final do painel, os debatedores reforçaram as expectativas em relação aos resultados da COP. Marina Ferro destacou que, apesar de recente, o tema avança rapidamente e ainda enfrenta desafios de implementação, mas já se consolida em torno da integridade socioambiental. Para ela, o conceito de transição justa deve sair fortalecido do encontro. Lembrou ainda que a dignidade é um princípio constitucional básico, associado ao bem-estar, à liberdade e aos direitos fundamentais.
Os painelistas convergiram na visão de que a transição climática e energética só será efetiva se for centrada nas pessoas, conectando responsabilidade social, direitos humanos e governança empresarial. “Clima não é só ciência, é também pessoas, meio ambiente e integridade”, resumiu Marina Esteves.
Por Agência CNT Transporte Atual



