Especialistas mostram que o caminho para a inovação e digitalização dos negócios passa pela cultura, liderança humana e capacidade de ver o que ninguém vê
Uma imagem aparentemente simples despertou a curiosidade do público na palestra de encerramento do SEST SENAT Summit 2025. Na tela, uma figura em preto e branco, com manchas escuras dispersas sobre um fundo claro. “O que vocês veem?”, provocou Amy Webb, futurista multipremiada e referência nas previsões apresentadas nos últimos anos, no festival SXSW (South by Southwest). Ninguém identificou de imediato que se tratava de uma vaca. A metáfora serviu como ponto de partida para uma reflexão sobre como interpretamos o mundo, lemos os sinais e, muitas vezes, deixamos de perceber o óbvio até que seja tarde demais.
“A maior infraestrutura da logística não são as estradas; são as pessoas que fazem tudo acontecer”, ressaltou Amy Webb. Para ela, o maior desafio atual não está na escassez de tecnologia, dados ou inovação, mas, sim, na incapacidade de “reperceber” – conceito que define a habilidade de identificar sinais em meio a ruídos, conectar padrões aparentemente desconexos e enxergar o todo onde muitos só veem fragmentos.
“Os pontos pretos da imagem são os dados que temos. Os espaços em branco são as incertezas, o que não sabemos, mas que pode definir nosso futuro. Quando a incerteza cresce, nosso cérebro se fixa nos problemas. Paramos de ver os espaços em branco. E perdemos a imagem completa”, explicou. Em momentos de crise, destacou ela, é justamente essa visão ampla que se torna mais escassa e que pode ser decisiva para salvar uma empresa, uma cadeia de suprimentos ou até mesmo uma cidade.
A logística e o transporte no Brasil enfrentam um cenário de pressão cada vez maior, com trânsito caótico, eventos climáticos extremos e expectativas de entrega imediata. Segundo a especialista, o setor ainda permanece preso a uma lógica ultrapassada, voltada ao curto prazo, resistente a mudanças e pouco preparada para antecipar riscos.
“A rede logística foi planejada para um tempo mais simples, com clima previsível e demanda estável. No entanto, estamos sob estresse há um tempo, e ainda não criamos mecanismos para ver a próxima crise antes que ela chegue”, alertou. Os sinais, segundo ela, já são visíveis. As enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul, em 2024, são prova disso. Mas, assim como na imagem da vaca, muitos continuam focando apenas nos pontos pretos (os problemas imediatos) e deixam de perceber o contexto mais amplo, explicou Amy.
O Ever Given e a lição que ignoramos
Em 2021, o navio Ever Given encalhou no Canal de Suez, causando prejuízos estimados em US$ 10 bilhões por dia ao comércio global. Segundo a futurista, as informações sobre a rota da embarcação estavam dispersas em sistemas diferentes, sem integração, por isso ninguém conseguiu conectar os pontos a tempo. “Ver o problema tarde demais é a mesma coisa que não vê-lo”, alertou. Para ela, o Brasil enfrenta situação semelhante, com dados fragmentados, sistemas isolados e decisões tomadas no escuro.
Para mostrar que a mudança é possível, Amy citou um exemplo inusitado: a trajetória da Nintendo. Fundada em 1889, muito antes da era dos videogames, a empresa japonesa começou como fabricante de cartas de baralho para a elite. Ao longo de mais de um século, atravessou o fim do feudalismo, a modernização do Japão, duas guerras mundiais, a chegada da televisão e a revolução digital. Em cada virada histórica, não resistiu à mudança, e sim a antecipou. Por exemplo:
- Lançou cartas infantis com personagens da Disney, aproveitando o sucesso do cinema no Japão.
- Percebeu que as televisões se popularizariam e criou o primeiro console conectado a elas.
- Entendeu que os jovens americanos gostavam de shoppings e levou o videogame para os fliperamas desses centros de consumo.
“A Nintendo não sobreviveu, em todos esses anos, por sorte. Sobreviveu porque soube se reperceber antes dos outros. E, hoje, lidera não por tradição, mas, sim, por capacidade de enxergar o novo contexto antes que ele se torne evidente”, afirmou Webb.
Segundo a futurista, o erro mais comum, em tempos de incertezas, é tentar planejar o futuro como se fosse o passado. “Modelos lineares de planejamento, com metas fixas e cronogramas rígidos, são perigosos quando o cenário muda rápido”, disse. Como alternativa, ela apresentou o conceito do Cone do Tempo, que propõe pensar no curto e no longo prazos, simultaneamente. A ideia é usar uma estrutura que mede o grau de certeza e mapeia ações, em vez de simplesmente marcar a passagem do tempo em trimestres ou anos. Por isso, ela defende que “os líderes precisam pensar em dois tempos, ou seja, ao mesmo tempo, resolver o agora e preparar o depois”.
Como estimular a mentalidade digital
Para Aline Carvalho, diretora de Gente e Pessoas da Norsul, o maior entrave da transformação digital no transporte não está nas máquinas nem nos softwares, mas, sim, nas pessoas. “Quando a gente fala que as empresas estão mudando devagar, estamos falando da gente”, provocou ao abrir seu workshop no SEST SENAT Summit.
O diagnóstico é que muitas empresas do setor ainda operam com práticas herdadas da Era Industrial (1800-1960), quando eficiência, previsibilidade e controle eram valores centrais. Hoje, porém, o mundo já avançou da Era Digital para a chamada Era Pós-Digital, na qual adaptabilidade, colaboração e capacidade de navegar na incerteza são essenciais.
Carvalho apresentou seis estratégias que facilitam a adoção de uma mentalidade compatível com os tempos atuais:
1 – Confiança corajosa
Mais do que empatia, trata-se de criar um ambiente onde conversas difíceis sejam possíveis, sem punir quem traz más notícias. Isso exige transparência radical, segurança psicológica e capacidade de sustentar conflitos de forma produtiva.
2 – Fim da cultura do herói
Na Era Digital, o líder não pode ser a figura central que concentra decisões e protagonismo. É necessário redistribuir responsabilidades e permitir que as equipes ganhem autonomia para agir com rapidez e inteligência.
3 – Superar o apego ao conhecido
A previsibilidade é confortável, mas a transformação digital exige abertura ao desconhecido. Resistir a novos processos e ferramentas é natural, mas precisa ser trabalhado como parte da estratégia.
4 – Mais perguntas, menos respostas
Em um ambiente de mudanças rápidas, a pressa por respostas definitivas pode ser um erro. Líderes digitais cultivam curiosidade ativa e fazem perguntas que conectam diferentes áreas e perspectivas.
5 – Mudança de dentro para fora
Transformações reais começam pelo desenvolvimento humano. Isso inclui propósito claro, investimento em habilidades que a tecnologia não substitui e uma cultura de aprendizagem que aceita erros como parte do processo.
6 – Coragem para abandonar o obsoleto
Muitos processos sobrevivem por inércia, como reuniões desnecessárias, aprovações excessivas e relatórios sem uso. A mentalidade digital exige questionar e eliminar o que não agrega valor.
Liderança de mudanças organizacionais
Para Mike Oliveira, fundador do Instituto Brasileiro de Liderança, qualquer conversa sobre o futuro de uma empresa deve começar conectando sonhos à estratégia. “Quando a gente olha para o futuro, de desejos e sonhos, temos que falar de estratégia”, afirmou, no início de sua palestra, sobre gestão de mudanças organizacionais.
Segundo ele, o elo entre aspiração e execução é a liderança, que leva a cultura para a estratégia. Citando o CEO da Microsoft, reforçou que “a capacidade de mudar a cultura é a única forma de manter a inovação viva”. A mensagem central é que não é a tecnologia que transforma empresas, e sim a cultura que as sustenta.
Mike apresentou um diagnóstico que classifica empresas em três níveis de maturidade cultural. Na cultura reativa, o poder está concentrado no topo, e a visão é de curto prazo, o que gera resultados instáveis. Na resiliente, há mais controle e previsibilidade, mas a aversão a riscos limita a inovação. Já a inovadora é marcada por testes constantes, autonomia das equipes e resultados exponenciais.
O objetivo, segundo ele, é criar condições para que a inovação aconteça de forma natural. “Se o esforço para mudar a cultura for o mesmo que para inovar, as pessoas começam a buscar soluções sozinhas”, explicou.
Para guiar empresas rumo a uma cultura inovadora, Mike destacou cinco movimentos integrados, que não são passos isolados, mas, sim, ações que se reforçam mutuamente:
1 – Visão de futuro arrojada
Criar planos ambiciosos, envolver o time na construção dessa visão e reforçar constantemente o rumo a seguir. Sem isso, a rotina engole qualquer tentativa de inovação.
2 – Densidade de talentos
Atrair e desenvolver competências essenciais para o futuro, como pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas complexos, uso de tecnologia e resiliência.
3 – Segurança psicológica
Garantir que todos possam se expressar sem medo, estimular feedbacks informais e celebrar erros como parte do aprendizado.
4 – Debriefing contínuo
Realizar reuniões frequentes em torno de três perguntas: o que celebrar, o que ajustar e o que abandonar, criando um ciclo permanente de melhoria.
5 – Tocar o coração das pessoas
Conectar cada colaborador ao propósito maior da empresa, valorizar contribuições e formar líderes humanos que equilibrem resultados e relacionamentos.
Estudos reforçam a urgência dessa transformação. A MIT Sloan Management Review aponta que cultura pesa mais do que investimento para o sucesso digital. O Boston Consulting Group indica que empresas que alinham cultura e tecnologia têm 70% mais chances de êxito. E o Gartner prevê que, até 2027, mais de 70% das transformações digitais serão reavaliadas ou reiniciadas por falta de maturidade cultural.
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Por Agência CNT Transporte Atual



